Li agora há pouco uma matéria a respeito do III Fórum Mundial de Teologia e Libertação, que ocorreu em no mês passado. Decidi comentar apenas as partes mais esdrúxulas da reportagem. Ei-la na íntegra (com as minhas inferências)

 

            Na apresentação da mesa-redonda “Direitos Humanos e Teologia” na tarde do dia 23 de janeiro durante o III Fórum Mundial de Teologia e Libertação que está sendo realizado na cidade de Belém, capital do estado do Pará, refletiu-se sobre a possibilidade de construirmos novas teologias que viessem superar o profundo racionalismo cartesiano que se estabelece na mentalidade de muitos teólogos e teólogas, mesmo nesta nossa tão querida América Latina. Tratou-se da necessidade evangélica de um novo contexto de promoção dos sonhos e utopias, bem como do enfrentamento aos novos instrumentos de barbárie que estão se solidificando na sociedade.

            Sob a coordenação de Felício Pontes, Procurador da República no Estado do Pará, iniciou-se um momento forte e rico de experiências, de fé e de testemunho daqueles que estão no fazer – teológico da práxis, do cotidiano e que sentem a realidade dos povos em suas mais diferentes atuações, sejam elas pastorais, educacionais, políticas ou culturais. O Procurador Felício Pontes é um jovem animado pelas experiências que conduziram sua caminhada dentro dos movimentos sociais o que o torna sensível ao clamor dos pobres e daqueles que se encontram em situações que podemos chamar de “desumanas”.

 

            Após a saudação introdutória do Procurador da República Felício Pontes, deu-se início alguns testemunhos de teólogos e agentes de pastorais, entre os quais: um teólogo mexicano, um teólogo boliviano, um teólogo quilombola do Brasil, um teólogo coreano, um teólogo brasileiro da Igreja Batista, um padre brasileiro ameaçado de morte em Santarém – PA e um pastor evangélico de Cuba que terminou os testemunhos com uma oração de louvor e ação de graças à Revolução Cubana e destacou: “Dez presidentes yanques – norte-americanos – passaram e a Revolução continua!” E, houve um imenso aplauso para as palavras desse franzino pastor cubano chamado Raúl. Contudo, um testemunho chamou-me a atenção pelo motivo de que os problemas apresentados estão sendo vivenciados em terras brasileiras, a saber: O testemunho de Dom José Luis Azcona, bispo do Marajó, religioso agostiniano que vive como missionário no Brasil há muitos anos e que em nossos dias sofre conseqüentes ameaças de morte.

 

            Comentário: Dos males o menor: pelo menos quem elevou a Deus a prece em ação de graças pela revolução cubana foi um pastor e não um padre. Pergunto: que revolução continua? Cuba está arruinada! Muito sugestivo que o nome deste pastor seja Raúl… Qual será o sobrenome? Castro?

 

            A situação no estado do Pará em relação à violação dos direitos humanos foi denunciada pelo bispo do Marajó, Dom José Luis Azcona, em especial, violação dos direitos das mulheres, crianças, adolescentes, camponeses e indígenas. A crítica foi realizada ao poder público que se encontra em estado amorfo, sem nenhuma ação concreta de combate aos mais variados tipos de exploração humana. O poder judiciário se encontra complacente com a situação e problemática de exploração sexual onde crianças, adolescentes e jovens são “coisificados” pela cobiça do prazer e do capital por um grande esquema de exploração sexual que envolve desde políticos até membros da elite dominante do estado do Pará.

 

            Mulheres são enviadas para prostituição em outros países, concretamente, na Guiana Francesa o que caracteriza uma violação dos direitos humanos já que se constataram casos concretos de tráfico humano. O tráfico humano de mulheres coincide com a exploração sexual constante de crianças e adolescente em todo Estado, em especial, na ilha do Marajó, território onde se localiza a Prelazia.

           

            Além do bispo do Marajó, Dom José Luis Azcona, outros dois bispos do Pará estão ameaçados de morte. Dom Flávio Giovenale, bispo de Abaetetuba e Dom Erwin Kräutler, bispo da Prelazia do Xingu onde se encontra a cidade de Anapu na qual Irmã Dorothy Stang foi brutalmente assassinada por defender os povos indígenas, os trabalhadores rurais e a floresta.  Na defesa dos povos indígenas realizada pelo bispo do Xingu se percebe o compromisso com o Evangelho e com os direitos dos índios e da floresta. Na defesa da garota menor que se encontrava trancada numa prisão com vários homens, o bispo de Abaetetuba sofre conseqüentes ameaças de morte. Trata-se de uma situação concreta de anúncio profético da Igreja na Amazônia e de denúncia das injustiças sociais contra os mais oprimidos da sociedade. As ameaças realizadas são porque os referidos bispos fizeram o compromisso com uma causa que afeta os interesses de uma elite dominante, a mesma que pratica crimes ambientais e ecológicos contra a floresta e, principalmente, contra os povos da Amazônia. Além dos três bispos, segundo Dom Azcona, mais de 200 pessoas se encontram ameaçadas pelo capital hegemônico incorporado por meio de empresas, latifundiários, transnacionais, madeireiros, traficantes de pessoas e de drogas, entre outros.

 

            Em plena realização do III Fórum Social Mundial na cidade de Belém, na mesa-redonda sobre “Direitos Humanos e Teologia”, Dom José Luis Azcona apresentou algumas questões que nos faz pensar o que-fazer teológico de todos os participantes deste Fórum. Evidentemente, suas palavras estavam cheias de “paixão” pela causa do Reino e pela causa dos pobres. Como disse claramente o bispo do Marajó: “Teologia da Libertação não se faz em gabinetes, mas em ações concretas”.

            Também nos apresentou algumas características concretas do estado do Pará e dos pobres que se encontram em situação de “cooptação” por parte de programas paliativos e compensatórios do Governo brasileiro, entre eles, Bolsa-Família. Estão cooptados porque estão despolitizados completamente, sem nenhuma noção de seus direitos e totalmente silenciados para almejar um processo de luta contra o sistema que os escraviza.

 

            Comentário: Enfim, um comentário sensato: disse o que tinha de dizer do Bolsa-Família. Eu teria sido um pouco mais radical: teria dito que esse programa não passa de uma esmola que tem formado a muitos na escola da vadiagem!

 

            Dom Azcona, crítica a situação de descaso do Estado em suas relações econômicas que forçam as pessoas a permanecerem num estado de escravidão. Por causa do Evangelho e dessa esperança de um mundo melhor é que, segundo Dom Azcona, se ousa lutar contra a lógica perversa de um sistema que cria e recria constantemente a “cultura de morte”.  Tais ameaças estão pautadas a partir de três principais questões, a saber: Denuncia de prostituição infantil, trabalho escravo e camponeses; tráfico humano para Guiana; Cultura da morte: falta de dignidade humana; Contexto de desumanidade: falta de direitos humanos mínimos.

 

            Segundo Dom Azcona, perguntaram-lhe os jornalistas recentemente: “O Sr. não tem medo de morrer?” Trata-se de uma pergunta chave. Pela causa do Evangelho e da dignidade humana, dos direitos elementares do ser humano e em defesa da Amazônia e de suas populações que vivem ainda no atraso social e totalmente despolitizado deixando o banquete nas mãos de pequenos estamentos patrimonialistas que se formam nas cidades inseridas nas matas do Marajó (…) Por causa disso, está preparado para seguir o testemunho de Jesus e defender com a vida suas convicções. O bispo, com uma voz profunda de profeta, diz sentir uma profunda alegria nestes momentos de tormenta em sua vida. E pede a todas as comunidades: “(…) rezem para que não seja covarde, para que siga na defesa dessas crianças, das mulheres e dos injustiçados”.

 

            Comentário: “Voz profunda de profeta”. Pensei que apelar para o sentimentalismo fosse exclusividade de certos carismáticos… Mas, ao que me parece, à TL se rendeu a uma pouco de emotividade… É como se isso ajudasse a criar uma aura de mártir. Argh!!!

 

            Dom Azcona, lançou um desafio ao III Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Que se fizesse um Manifesto a partir do Fórum Mundial para que desse visibilidade internacional aos problemas apresentados e que servisse para sensibilizar os poderes instituídos na sociedade brasileira: executivo, legislação e judiciário. E afirmou com toda

veemência: “Podemos fazer uma teologia combativa que não seja teologia de gabinete”. O Manifesto possibilitaria mostrar ao mundo inteiro a falta de direitos humanos no Brasil e no estado do Pará, pois até o momento ninguém foi investigado. Por fim, Dom Azcona não hesitou em afirmar: “Não tem libertação, não tem teologia, se não vai à história”.

 

            Comentário: Manifesto Comunista, o retorno!    Teologia combativa para mim é um claro incentivo à luta de classes. É a maneira mais explícita de dizer: “somos discípulos de Marx”.  Fique claro uma coisa: protestar contra uma injustiça – qualquer que seja ela – é digno, justo e bom. O que não creio ser correto é usar a teologia para isso. Querer “desenvolver” (isto é: inventar) uma teologia que sirva às nossas pretensões é desonestidade. É como iniciar uma pesquisa científica com uma conclusão pré-fabricada; é ir a campo querendo apenas coletar dados que corroborem o resultado que se quer obter. Além disso, que raios é teologia de gabinete?  Porque se for concordata política não tem nada a ver com teologia. “Não tem libertação, não tem teologia, se não vai à história”. D. Azcona, não se tem libertação se não se chega ao céu!

 

 

            Que Teologia da Libertação temos e queremos? Que Teologia da Libertação se espera? As palavras de Dom José Luis Azcona nos colocam questões fundamentais para que possamos refletir sobre o sentido epistemológico, mas também, profético da teologia hoje. Penso que a teologia se faz a partir da práxis das comunidades, dos movimentos sociais e pastorais das igrejas e do testemunho profético, emergencialmente necessário para construirmos outro mundo possível e uma teologia encarnada na realidade de tantos clamores de sujeitos que não possuem voz e vez na sociedade idolátrica onde até mesmo seres humanos estão sendo consumidos como “coisas descartáveis” com a omissão dos poderes públicos.

 

            Comentário:     Este é um acréscimo do autor da reportagem, Claudemiro Godoy do Nascimento, que é professor da Universidade Federal do Tocantins. Se eu tivesse que responder às perguntas deste senhor, eu diria:

 

            – Que teologia da Libertação temos?

            – Uma teologia comunista e antropocêntrica (que incoerência).

 

            – Que teologia da libertação (…) queremos?

            – Uma que se identifique a Teologia da Redenção. Essa sim é a verdadeira libertação do homem: desvencilhar-se das garras do pecado correspondendo à graça de Deus que o chama à santidade.

 

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