Aqui trato um texto escrito a quatro mãos com o autor do blog Deus lo vult!, meu grande amigo, Jorge Ferraz.

 

 

            Estou seguro de que algumas pessoas carecem de ofício, isto é: não tem o que fazer! Encontrei na internet um artigo intitulado “Sexualidade e discursos religiosos”, de autoria de uma senhora chamada Lúcia Ribeiro. Trata-se de um conjunto de asneiras e mentiras escritas em linguagem TL e relativista.

            Fiz questão de tecer aqui alguns ligeiros comentários por dois motivos: primeiro, porque a leitura deste texto me provoca náuseas e a indignação precisa de algum modo ser extravasada; segundo, porque há alguns elementos e afirmações, enunciados pela Srª Lúcia Ribeiro, que – infelizmente – são transmitidos e absorvidos por muitos católicos como sendo “doutrina da Igreja”. É mister, portanto, desmenti-los.

 

            Nas últimas décadas, alguns marcos importantes caracterizaram este processo: o matrimônio deixou de ser visto preponderantemente em função da procriação – considerada como seu fim primário – para valorizar igualmente o encontro amoroso entre os cônjuges;

 

            Conversa fiada, porque o fim primário do Matrimônio é e permanece sendo a procriação. Acontece que “fim primário” nunca significou “fim exclusivo”, exceto na cabeça dos inimigos da Igreja que, na ânsia de atacá-La, precisam inventar caricaturas as mais bizarras possíveis; e o que me incomoda profundamente é ver como essas caricaturas encontram acolhimento pelo “grande público”!

            “Esta doutrina [acerca do matrimônio], muitas vezes exposta pelo Magistério, está fundada sobre a conexão inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e o significado procriador. Na verdade, pela sua estrutura íntima, o ato conjugal, ao mesmo tempo que une profundamente os esposos, torna-os aptos para a geração de novas vidas, segundo leis inscritas no próprio ser do homem e da mulher. Salvaguardando estes dois aspectos essenciais, unitivo e procriador, o ato conjugal conserva integralmente o sentido de amor mútuo e verdadeiro e a sua ordenação para a altíssima vocação do homem para a paternidade. Nós pensamos que os homens do nosso tempo estão particularmente em condições de apreender o caráter profundamente razoável e humano deste princípio fundamental”. (Humanae Vitae, Nº.12)

 

 

Por outro lado, a sexualidade, que antes tinha uma conotação preponderantemente negativa, associada ao pecado, começou a ser valorizada em si mesma, enquanto dom de Deus.

 

Mais conversa fiada. A sexualidade associada ao pecado é a sexualidade dissociada de seus fins inerentes – o procriativo e o unitivo. Óbvio é que a sexualidade (o prazer sexual inclusive) é dom de Deus, como, aliás, todo prazer, porque Deus é o Criador de todas as coisas (do prazer, inclusive), não havendo no mundo nada que seja criação de Satanás (o pecado não é propriamente uma “criação” em si, e sim uma ausência, uma desordem). A idéia de que existem coisas que foram criadas por Deus e coisas que foram criadas por outra pessoa (Satanás, talvez) não é católica e sim gnóstica, tendo sido sempre combatida pela Igreja.

 

Daqui a pouco vão dizer também que a comida, antes com conotação negativa (afinal, existe a luxúria, mas também existe a gula…), foi finalmente valorizada enquanto dom de Deus…

 

E tem ainda outra coisa: em si mesma a sexualidade só pode conduzir ao pecado, porque é exatamente aí que entra a desordem da qual falávamos: como todas as coisas criadas e todas as dimensões do ser humano, a sexualidade precisa estar orientada para os seus fins, para a procriação e para a união dos cônjuges, e não buscada em si mesma! A sexualidade como sendo ela própria o seu próprio fim é que conduz à desordem moral que nós encontramos nos nossos dias, e que sempre foi – e ainda é, e sempre será – condenada veementemente pela Igreja.

Desta forma, o debate que antes girava sobre a proibição da contracepção transferiu-se para o nível da proibição dos métodos a serem utilizados.

 

Negativo. A contracepção permanece proibida (vide Humanae Vitae, Nº. 14); os chamados métodos naturais de regulação da fertilidade não são propriamente métodos contraceptivos, pois se baseiam nos períodos naturais de fertilidade da mulher. Não existe um ato que se propõe a tornar impossível a procriação (como o ato de colocar uma barreira plástica como a camisinha, ou de tomar veneno para que os ovários deixem de funcionar, etc); existe, simplesmente, a identificação dos períodos nos quais a mulher está naturalmente incapacitada para conceber. Se alguém não consegue ver a diferença entre uma intervenção humana na natureza e uma observação da natureza, o caso é sério.

Se pensamos a Igreja como “Povo de Deus” – de acordo com o Concílio Vaticano II – é fundamental distinguir aí também a voz de outros setores, que se expressam através da reflexão teológica, da orientação pastoral e da prática dos/as fiéis.

 

Sabe-se lá o que foi que a Sra. Lúcia quis dizer com isso! A Igreja é Povo de Deus, sim, mas também é o Corpo Místico de Cristo, é a Esposa de Nosso Senhor e é a Coluna e Sustentáculo da Verdade! Isto significa que a “voz de outros setores” só tem vez, evidentemente, enquanto não contraria a voz da Igreja, que é a voz de Cristo (“quem vos ouve, é a Mim que ouve” – Lc 10,16).

 

Não existe “democracia docente” na Igreja; o Povo de Deus é Povo que caminha em direção à Pátria Celeste, e não povo que, juntamente, “descobre” o caminho que quer seguir. O Caminho já Se revelou aos homens, e os percursos a serem percorridos já estão traçados. O Povo de Deus caminha junto, sem dúvidas, mas não “inventa” o caminho a ser percorrido. Quando os judeus quiseram por si só ser “povo de Deus” igualitário, oferecendo sacrifícios a Deus por si próprios e prescindindo de Moisés, Deus os castigou severamente (Nm 16). Também na Igreja não existe “Povo de Deus” que prescinda da Sagrada Hierarquia.

 

Como bem clarifica Fabri dos Anjos, quando se fala em Igreja, com facilidade se subentende sua hierarquia mais alta, ou seja, o Papa e os Bispos. Estes falam oficialmente em nome da Igreja. No entanto, a Igreja não se reduz à instância hierárquica que é minoritária. Embora o posicionamento oficial seja nela de grande peso, a reflexão ética se tece em seu meio também com a participação de outros segmentos importantes como o trabalho dos teólogos e a prática e o sentimento dos católicos em geral. (Fabri dos Anjos,1986: 1066) .

 

Na verdade, mais blá-blá-blá. Quem tem autoridade de ensino na Igreja é o Magistério, formado pelo Papa e pelos bispos em comunhão com ele; obviamente que esta instância é minoritária porque, em qualquer estrutura hierárquica possível, o número dos governantes é menor do que o dos governados. Um reino obviamente tem mais súditos do que rei e membros da corte; um rebanho tem evidentemente mais ovelhas do que pastores. Postular o contrário disso é destruir toda possibilidade de hierarquia.

Os fiéis leigos têm, sem a menor sombra de dúvidas, a sua importância, mas o ponto aqui é que esta não se exerce à margem ou à revelia do Magistério da Igreja.

Entre estes diversos tipos de discurso existem diferenças e coincidências, dado o seu contexto e o lugar social em que se originam, gerando defasagens e contradições dentro da própria Igreja. (Ribeiro, 2001: 39)

 

As contradições existem entre os que são obedientes à Igreja e os que Lhe desobedecem. Não pode pretender ser católico fiel quem não tem docilidade para com os ensinamentos da Igreja, quem ousa, por sua própria conta, contestar os ensinamentos d’Aquela que Cristo deixou no mundo como farol a iluminar todos os homens e a mostrar o caminho que deve ser seguido por quem deseja alcançar a Vida Eterna.

 

 

 

P.S.: O artigo da Srª. Lúcia Ribeiro, foi encontrado no site de um instituto de pesquisa chamado ISER (veja aqui a missão da ISER). A vice-presidência do instituto é exercida pelo digníssimo Leonardo Boff. Na seção de artigo se encontra uma elegia a D. Pedro Casaldáliga, de autoria de D. Tomás Balduíno. O artigo de D. Balduíno chama-se: Pedro, Bispo. Acho que eu preciso rever em que sites ando entrando (mesmo que sem querer…).