Um artigo publicado na revista Vida Pastoral (edição nº. 265 – março-abril de 2009 – ano 50) me chamou atenção. Um padre amigo meu foi quem me mostrou este artigo e pediu-me que o comentasse e publicasse. O artigo é de autoria de Vitória Prisciandaro, e foi primeiramente publicado na revista italiana Jesus (San Paolo); e depois traduzido pelo Pe. Lourenço Costa para a Vida Pastoral.

            O texto traz uma análise bastante antropológica do Rito. É dito, por exemplo, que “o de São Pio V é um missal rigorosamente individualista, em sintonia com o sentir de hoje, ao passo que o de Paulo VI tem uma abordagem comunitária e, por isso, é percebido como mais antigo em relação à cultura individualista atual”. Devo reconhecer que, embora esse tipo de colocação – que coloca o Rito Antigo como “intimista” e o Novus Ordo como “extrovertido” – não me agrade, tem sua parcela de verdade. O Rito Tridentino parece realmente propiciar uma participação interior na Santa Missa de forma mais intensa, o que não necessariamente o torna individualista. Nas orações ao pé do altar (ante-missa), por exemplo, é evidente que aquele diálogo mantido entre o padre e os fiéis demonstra que a Missa é um sacrifício vivido no seio do povo de Deus, no âmago da comunidade cristã:

 

«Deus tu conversus vivificabis nobis

Et plebs tua laetabitur in Te»

 

            Da mesma forma, o Rito de Paulo VI enfatiza, sim, a dimensão comunitária e eclesial da Missa; mas não deixa de propiciar (quando celebrado em obediência às rubricas) um encontro íntimo e pessoal com Cristo na Eucaristia. Portanto, poder-se-ia dizer que os ritos conservam um equilíbrio quanto à participação interior e exterior dos fiéis.

            Outra observação interessante do artigo é que a falta de precisão terminológica no Motu Proprio Summorum Pontificum gerou conflitos internos na Igreja: “’Grupo estável’, ‘conhecimento do latim’, ‘autoridade do bispo’ são alguns dos pontos sobre os quais se discutiu nesses meses”. Para esclarecer esses pontos obscuros, Verônica Prisciandaro, lembra que o secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcísio Bertone mencionou que seria divulgada uma “instrução” para o correto entendimento e aplicação do Motu Proprio. Esta instrução, porém, ao que me consta, até hoje não saiu.

            Como não vou me deter a comentar todo o artigo, selecionei alguns trechos interessantes para dar a conhecer. Ei-los:

            “(…) Um dos pontos candentes sobre os quais haverá de intervir a próxima instrução é exatamente o parágrafo no qual se diz ser possível celebrar a eucaristia e os sacramentos como o rito anterior à reforma litúrgica em todas as paróquias em que haja um “pedido motivado” e um “grupo estável”. A falta de “estabilidade” – entendida como história preexistente e conhecimento mútuo entre os membros de uma mesma comunidade – fez com que, em muitos casos, os padres, apoiados pelos bispos, recusassem a celebração extraordinária a grupos de pessoas provenientes de diversas paróquias, que se juntaram ad hoc na ocasião”.

            A respeito do caráter teológico da missa é dito o seguinte:

            “’O medo é nos encontrarmos diante de dois modelos eclesiológicos diversos: o primeiro é centrado sobre o padre, e para o outro é fundamental a participação da comunidade’. Para sublinhar a diferença, Groen relembra o documento preparatório do Missal de Trento, que se inicia com a frase: ‘Sacerdos paratus’ (“quando o padre está pronto”), ao passo que o texto da liturgia de Paulo VI se inicia com ‘Populo Congregato’ (“quando a assembléia está reunida”)”.

            O artigo também trata da famigerada modificação na oração da Sexta-feira Santa pelos judeus; aponta para a questão do conflito de autoridade às vezes existente entre padres, bispo e a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei; e faz um destaque importantíssimo: a existência de dois Ritos (sendo um ordinário e ou outro extraordinário) é uma situação inusitada para a liturgia romana porque faz com que existam “duas” Lex Orandi para uma mesma Lex Credendi, ou seja, a fé é uma só, mas se expressa – pela oração – de dois modos. É realmente meio confuso. Quem tiver a oportunidade não deixe de ler o artigo. Infelizmente não pude postá-lo na íntegra.

Anúncios