A Jorge Ferraz

 

 

            “Meu amigo”. Orgulho-me em poder dirigir a ti, Jorge, estas palavras. Há muito deveria ter-te manifestado a imensa gratidão que sinto em dispor de tua amizade. Uma amizade que o tempo não desvanece, que brilha quando é noite, e que – mesmo o outono – não consegue acinzentar. De bons momentos que passamos juntos, posso escrever centenas de páginas. Mas quero recordar aqui apenas alguns, para que aqueles que vierem a ler esta carta aberta tenham a noção de que amigos não são necessariamente aqueles que convivem intensamente; mas, sim, aqueles que conseguem eternizar os momentos que passam juntos.

            E eu quero começar pelas viagens. Foram tantas, caríssimo! São Paulo, Rio de Janeiro, Natal, Caruaru, Brasília… Cada uma com suas histórias. Mil e uma histórias. Recordo-me de você declamando “Navio Negreiro” enquanto caminhávamos na orla de Copacabana. Tu sabias o poema quase inteiro de cor. Eu mal sabia o quarto canto! E que dizer da situação naquela pizzaria da Lapa? O garçom chega à nossa mesa e pergunta: “o corte da pizza será à francesa?”. Ao que eu respondo: “sim”. Quando o garçom se retira, tu me perguntas: “Que corte é esse?”. E eu: “Não faço idéia. Mas o garçom precisava de uma resposta e eu dei”. E nos rimos à vontade. Rimos-nos também quando numa turbulência no vôo para Brasília, em meio ao terço, você puxou a invocação a Nossa Senhora da Boa morte. Foi hilário. Graças a Deus não foi daquela vez que nos encontramos com a Santíssima Virgem…

            De pizzarias, bares, lanchonetes, botecos, restaurantes, e afins nós entendemos. Em Recife, creio que são poucos os lugares nos quais não estivemos. Sempre a mesma coisa: tu de chopp e eu de coca-cola… E nessa vida – quase que boêmia, eu diria – quantas lágrimas e sorrisos compartilhamos. Das lágrimas, não quero lembrar. Mas dos sorrisos, ah, como é bom recordá-los: rimos de tudo! Da vida, de nós mesmos, rimos um do riso do outro, com ou sem motivos! Rimos até dos nossos poemas de guardanapo feitos num bar da Boa Vista… Lembras-te?

            E que dizer das nossas conversas naquela lanchonete da Torre? Ás vezes eram puro besteirol. Às vezes discussões sérias e calorosas que pareciam intermináveis. Os assuntos eram os mais diversos (por vezes, totalmente díspares): Ora falávamos do PT, ora discutíamos sobre a Moral Católica…      

            Vivemos situações das mais diversas: de retiros a assaltos! Sim, fomos assaltados juntos, e juntos fomos prestar queixa na delegacia. E não sabíamos se ríamos ou chorávamos quando o policial que nos atendeu disse que não saia à noite porque a cidade não oferecia segurança…

            Lembras-te daquele Encontro de Jovens com Cristo em que trocamos recados em latim (o nosso pífio latim macarrônico)? Como era engraçado ver que os censores encarregados de ler as mensagens liberavam os nossos recados porque não entendiam absolutamente nada do que estava escrito na língua imortal!

            E como não mencionar que foste tu quem me apresentou ao Regnum Christi, mesmo sem ser membro do Movimento! Obrigado, caro. Lá encontrei muitos, novos e excelentes amigos. Lá encontrei minha vocação.

            Tu és o amigo que liga pra mim e diz com muita franqueza: “caro, vamos sair hoje. Tenho saudades de ti”. O amigo que se lembra de me trazer presentes quando eu não o acompanho nas viagens. O amigo com quem já escrevi alguns textos a quatro mãos. O amigo com quem compartilho tantos segredos e sonhos e planos… Enfim, O amigo.

            Como disse, foram muitas as ocasiões que vivemos juntos. Mas, antes de finalizar quero apenas recordar mais duas. Dois dezembros: um sombrio, o outro radiante.

            Primeiro aquela noite de Natal em que você bateu com o carro. Deixaste-me em casa e eu, mesmo vendo que estavas sem condições de dirigir (em virtudes de algumas muitas doses em excesso), deixei-te partir. Que grande erro de minha parte! Quando partiste, porém, rezei três ave-marias por ti. Bateste com o carro. O veículo: perda total. Tu, porém: ileso!… Como me senti culpado em saber que não fui capaz de impedir tua ida para casa naquelas condições. Mas, conforta-me saber que a partir daquela oração simples Deus produziu o milagre de salvar tua vida do desastre. Porque tu és precioso aos olhos dele.

            O outro episódio que quero mencionar, ocorrido em dezembro do ano passado é luminoso. É deveras bonito. O lugar: centro de convenções de Brasília. A situação: gravação do DVD da banda Anjos de Resgate. A música: amigos pela fé. Nada falamos. Mas enquanto ouvíamos e cantávamos a canção percebíamos aquilo que realmente nos liga: a fé. “Bons amigos que nasceram pela fé”. Era a nossa história. Apenas nos olhamos. E, dando uma tapa em minha cabeça, passaste o braço por cima do meu ombro como que a me dizer: “unidos pela fé, seremos amigos para sempre”. Recordo-me até hoje vivamente este momento.

            Tu tens sido para mim mais que um amigo: um pai, um irmão, um conselheiro. A ti, portanto, meu muito obrigado! Pela tua existência e pela tua caridade em conceder-me ser teu amigo. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos”. Obrigado, caro, por tantas vezes terdes dado a vida por mim.

 

No Coração de Jesus,

Gustavo Souza

 

 

 

            Esta carta deve ser divulgada aos quatro cantos da terra, com um único objetivo: provar que a amizade sincera e desinteressada existe, e eu tive – e tenho – a graça de experimentá-la através de Jorge Ferraz.

           

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