Há alguns dias meu pai me contou uma história. Não sei onde ele ouviu, mas achei muito interessante. Como se aplica ao que pretendo tratar neste texto, quero fazer eco às palavras de meu pai.

            “Conta-se que um cego pedia esmola numa calçada da cidade de Paris. Em suas mãos trazia um cartaz que dizia: ‘Ajude-me, por favor. Sou cego’. As pessoas passavam e, uma ou outra, deixavam uma moeda aos pés do mendigo. Ao fim do dia, ele recolhia as moedas. Normalmente, o que apurava mal dava para jantar… Certo dia, porém, passou por ali um publicitário. O homem se deteve diante do cartaz do mendigo e, após tirar do bolso uma caneta, pediu-o emprestado. O mendigo concedeu. Tomando o cartaz em suas mãos, o publicitário rabiscou algo no verso e devolveu-o ao cego, pedindo que ele segurasse de tal forma a mostrar aos transeuntes a nova mensagem que estava escrita. Ao longo do dia, muitas moedas foram depositadas aos pés daquele mendigo. Até cédulas lhe foram entregues! Ele percebia que algumas pessoas paravam diante dele e pareciam chorar emocionadas. Mas com o quê? Ele não sabia… Até que um dia o publicitário passou novamente diante dele. Quando ouviu a voz daquele homem o cumprimentando, o cego gritou: ‘senhor, por favor, me diga o que escreveu no cartaz’. O homem sorriu e disse: ‘não escrevi nada além da verdade. Apenas usei outras palavras’. A inscrição dizia o seguinte: ‘Hoje é primavera em Paris. Os rouxinóis cantam e as flores desabrocham alegres e coloridas. Pena que eu não as possa ver… ’”.

            Creio que esta história ilustra bem aquilo que nós, cristãos, precisamos fazer para evangelizar. O evangelho é o mesmo. A verdade é a mesma. Nada mudou. “Cristo, ontem, hoje e sempre”. Mas a maneira com que nós vamos apresentar Jesus ao mundo é que pode ser diferente. Claro que isso emana, primeiramente de uma atitude interior: Ser diferente faz a diferença. Só iremos anunciar a novidade de Cristo, quando formos homens novos (Ef 4,24).

            Por outro lado, sabemos que a Igreja – como disse o papa Bento XVI, na sua visita ao Brasil – não cresce por proselitismo, mas sim por atração. É Cristo que atrai os homens a si. As nossas “técnicas” de evangelização nada adiantariam se Cristo não os seduzisse. Entretanto, a nós cabe empregar os dons que ele nos concedeu. Não podemos enterrar o talento que recebemos (Mt 25,25). Devemos usá-lo de tal forma que “renda”, sabendo que, mesmo esse lucro, só pode ser obtido mediante a graça de Deus. Não é porque o Senhor colhe onde não plantou (Mt 25,26) que nós iremos deixar de semear. O homem planta e rega, mas é Deus que fazer crescer (1Cor 3,7). É verdade que Deus é quem faz germinar e crescer. Mas nem por isso vamos deixar de regar! Façamos a nossa parte, pois a de Deus é garantida.

            O que acontece muitas vezes é uma acomodação que nos impede de ser criativos. De ter a criatividade daquele publicitário. O que acontece é que muitas vezes nos prostramos como aquele cego que, provavelmente já estava conformado àquela realidade. “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rm 12,2). A acomodação, a preguiça nos impede de avançar para as águas mais profundas (Lc 5,4). A margem nos parece mais segura… Desta forma, nossos apostolados e projetos de evangelização vão ficando medíocres e enfadonhos. E isso é grave!

            É bem verdade que há que se tomar alguns cuidados. Não podemos, por exemplo, correr o risco de querer mascarar a verdade, ou desfazer-nos de nossas tradições sob o pretexto do novo. O prurido de coisas novas, como dizia Leão XIII, na Rerum Novarum, não nos deve afastar dos valores perenes, das verdades inegociáveis; nem nos fazer abandonar aquilo que, embora seja “velho”, é bom. “O reino dos céus é como um pai de família que tira de seu tesouro, coisas novas e velhas” (Mt 13,52).

            Na tentativa de inovar, de apresentar de um jeito novo o evangelho de sempre, acaba-se por cometer alguns erros de percalço. Alguns católicos andam palmilhando o caminho contrário ao que a Igreja traçou ao longo dos séculos. Ao invés de cristianizar aquilo que é pagão, tentam paganizar a Igreja. Veja-se, por exemplo, o caso das missas “animadas”. A Igreja não precisa incluir danças e “ornar” a Sagrada Eucaristia com apetrechos estranhos a ela, para torná-la mais “atrativa”. A beleza da missa emana justamente da serenidade com que ela é celebrada: a mesma serenidade com que Cristo abraçou a cruz! O que atrai as pessoas ao altar é o perfume suave que o sacrifício de Jesus exala.  E só.

            Também é muito comum que alguns líderes de evangelização da juventude, provavelmente sem se dar conta, acabem fazendo uma anticatequese quando, por exemplo, criam ou motivam a tal balada “santa”. Em vez de permitir que os jovens vão para as baladas  (do mundo mesmo) para que – por seu comportamento irrepreensível – sirvam de exemplo a outros; tentam, por assim dizer, “trazer a balada para dentro da Igreja” para, através dela, convidar jovens a ser de Deus. Estão cheios de boas intenções, eu creio. Mas não me convenço de que essa técnica seja eficaz. A meu ver, isto conduz a uma visão errada daquilo que é profano. O profano não é, nem nunca foi, sinônimo de demoníaco. Só os puritanos é que acham que sim. Essa visão prejudica, também, a correta compreensão do que vem a ser o sagrado. Pode cair no engodo, perigosíssimo, de achar que a balada pode ser dita “santa”, assim como a Missa é Santa…

            Que Deus nos ajude e nos ensine a evangelizar. Que Ele nos dê criatividade e sobriedade, coragem e determinação. Que ele nos motive quando estivermos desestimulados, e que nos ampare quando tivermos errado na tentativa de acertar. Aprendamos de São Paulo, a técnica por ele usada para conquistar as almas para Cristo:

            Para os judeus fiz-me judeu, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, fiz-me como se eu estivesse debaixo da lei, embora o não esteja, a fim de ganhar aqueles que estão debaixo da lei. Para os que não têm lei, fiz-me como se eu não tivesse lei, ainda que eu não esteja isento da lei de Deus – porquanto estou sob a lei de Cristo -, a fim de ganhar os que não têm lei. Fiz-me fraco com os fracos, a fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, a fim de salvar a todos. E tudo isso faço por causa do Evangelho, para dele me fazer participante” (1Cor 9, 20-23).

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