A Catholic World News (CWN) publicou, ontem, uma matéria na qual se informava que o Santo Padre acolheu, no Vaticano, os participantes de uma conferência sobre doação de órgãos, manifestando seu apoio (e também o da Igreja) ao transplante de órgãos. Este apoio está, obviamente, condicionado a que sejam satisfeitas as condições éticas mínimas, isto é: que o doador tenha consentido explicitamente em vida, e que esteja realmente morto.

            Essa notícia me fez pensar que a crise do mundo, na realidade, – além de uma crise de fé – é uma crise de obediência. O grande problema das pessoas não é aceitar que Fé e Ciência são compatíveis. A questão – que inquieta, que angustia – é aceitar que o conhecimento também deve obedecer a certas regras [éticas e morais]. Toda a revolta contra a Igreja, e o malicioso ardil de tentar afastá-La das discussões éticas (principalmente as bioéticas), decorre da não- aceitação de uma autoridade moral que coordena a evolução do pensamento e impede que o progresso científico ocorra a qualquer custo.

            Logo, o discurso pseudocientífico que visa demonstrar que Fé e Ciência são inconciliáveis nada mais é que desvio de atenção. Repito: o ponto principal da discussão com a sociedade modernista e laicizada não é provar que esses dois aspectos do conhecimento são aliados. Isto os santos já fizeram muito bem. A título de conhecimento, cito “apenas” dois santos:

 

            Santo Tomás de Aquino – Para ele, duas coisas não podiam ser estranhas uma à outra, se tinham uma mesma procedência. Ou seja: a Fé e a Razão provêm, ambas, da Verdade eterna – que é Deus – portanto não podem ser contraditórias.

            Santo Agostinho – O pensamento agostiniano era de que a Razão auxiliava a chegar a Fé. Essa era, para o Bispo de Hipona, a função mais nobre, mais importante da racionalidade humana: conduzir a Fé, a Deus, à Felicidade.

            Além disso, podemos citar as magníficas palavras com que o Sumo Pontífice João Paulo II, de saudosa memória, iniciou a encíclica Fides et Ratio: “A Fé e a Razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.

 

            Portanto, é evidente que o conhecimento religioso e o científico não são inimigos. Resta agora convencer as pessoas a perceber que mais importante que a ciência é a sabedoria. Mostrar a elas que fazer a vontade de Deus é mais importante que qualquer conquista da inteligência humana.  

            O Papa Bento XVI pronunciou este ano, no dia de São Tomás de Aquino, palavras que ilustram bem a situação da sociedade moderna frente à ditadura cientificista vigente. Dizia ele: “Em nossa época, na qual o desenvolvimento das ciências atrai e seduz pelas possibilidades que oferece, é importante, mais do que nunca, educar as consciências dos nossos contemporâneos, a fim de que a ciência não se torne o critério do bem”. Muito feliz a colocação do Sumo Pontífice. Sobretudo, a escolha da palavra “critério”. Esse é o real problema: ter critério. Os homens estão usando os critérios errados! E rejeitam quem lhes oferece a medida certa do que é bom, justo e belo: a Igreja. Rebelam-se contra a mãe que os quer alimentar. Desobedecem – como um adolescente empedernido em suas peripécias – porque julgam que sabem o que estão fazendo. Julgam que suas conquistas alcançarão o “bem de todos e a felicidade geral da nação”.

            É triste, mas também no âmbito interno à Igreja vemos essa desobediência se espalhar como uma praga.

           – Os abusos litúrgicos que resultam da não observância das rubricas são, muitas vezes, de uma rebeldia instalada no coração dos padres.

           – A candidatura de sacerdotes que – mesmo tendo perdido seu estado clerical e agindo à revelia de seus superiores – apresentam-se como clérigos, também demonstra a dificuldade de submeter-se à autoridade hierarquicamente superior.

           – O relativismo, que impede as pessoas de perceber que há coisas com valor absoluto intrínseco (como a vida, a dignidade humana, etc.), é, na verdade, um grande grito de “não à ordem”, um ato eminentemente anarquista.

            Urge, então, combater este mal que abate fiéis e infiéis: a desobediência. A guerra está declarada. A luta já começou! Precisamos vencer essa crise na qual o mundo está imerso. Sigamos o exemplo de Cristo que “sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2, 8).

 

 

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