Antes das eleições entrevistei um padre que era candidato à prefeitura de uma cidade da região metropolitana de Recife. Esse padre era – além de padre – diplomata e agora postulante à cadeira de prefeito. Bom, passadas as eleições, verificou-se – como já previam as pesquisas de intenção de voto – a derrota do reverendíssimo padre. Mas aquela entrevista me levou a uma reflexão muito séria e oportuna. Por que um padre se candidata? Quem – e com qual mentalidade – povoa o cenário político nacional como sacerdotes e candidatos?

 

 

Histórico de candidaturas

 

            Há quatro anos, segundo informações da Folha de São Paulo, no nordeste 14 padres eram candidatos apenas em São Paulo. Segundo a reportagem da Folha, um frade chamado Frei Anastácio (pasmem: do PT da Paraíba) era quem organizava um fórum de padres candidatos no Nordeste.

            O Instituto Humanitas Unisinos (veja o artigo completo neste site) informa que “em 2008, Em todo o Brasil, há 544 candidatos a vereador, 31 candidatos a prefeito e 17 a vice-prefeito que declararam ser ‘sacerdotes ou membros de ordem ou seita religiosa’ na relação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) […] No Estado (de Goiás, apenas), são 26 candidatos a vereador, três a vice-prefeito e um a prefeito”.

            Este blog confirma a informação do IHS como relação ao número de padres candidatos a prefeito: 31. E acrescenta que, no Maranhão, 13 candidatos nas eleições deste ano se declararam “sacerdote ou membro de ordem e seita religiosa”. A maioria, no entanto, são padres que tentaram entrar na vida pública. Destes 13, apenas um candidato era candidato a prefeito. Os demais postulavam o cargo de vereador.

            Daí me pergunto se isso tudo teve origem em Padre Cícero: ele foi prefeito, deputado federal, e em 1912 foi eleito vice-governador do Ceará. Será que foi ele que inspirou o Padre Otoniel Passos, da Diocese de Garanhuns (PE), que foi prefeito da cidade de Canhotinho 4 vezes?

 

 

Comentando os comentários

 

 

Padre Petrônio de Fátima Bonfim Alves (PT), 43, candidato a prefeito de Itagiba (BA), disse: “Temos que mostrar que a vida espiritual não está desligada do cotidiano das pessoas”.

 

            A essa afirmação esdrúxula normalmente se segue aquele tipo de comentário tosco: “não podemos ser pessoas alienadas… que fecham os olhos para os problemas da humanidade…” blá, blá, blá, blá, blá. Não se está pedindo que o padre se desligue do “cotidiano das pessoas”, mas que ele participe dessa realidade dentro do seu estado de vida e na posição que ele escolheu! Acaso pode-se dizer que o goleiro está aquém do jogo apenas por não ficar correndo de um lado para o outro em campo? De forma algumas. Ele vive aquela realidade dentro de suas condições. Não precisa sair da barra e tomar o lugar do atacante para mostrar que está jogando.

 

 

 

Em Anápolis (a 54 km de Goiânia), o candidato do PTB, deputado estadual Frei Valdair, argumentou: “Quando decidi me candidatar, apenas conversei com o bispo e não apareceu nenhum problema”, diz o petebista, que pediu licença depois que já ocupava o mandato legislativo.

            Problema grande! Falta de bispos com fibra! Ausência de Pastores que orientem suas ovelhas com clareza e austeridade, quando preciso for. Mais que dar consentimento, às vezes se encontra bispo que apóiam explicitamente (veja aqui).

Em Cidade Ocidental (a 192km de Goiânia), Frei Francisco (PSDB) – candidato a vereador – afirmou:Continuarei na Ordem Franciscana e na Câmara”.

 

            Jesus já tinha dito: ninguém pode servir a dois senhores. Ou amará um e odiará o outro; ou amará o segundo e odiará o primeiro. Essa idéia de jogar dos dois lados só prejudica.

 

Em entrevista dada à revista ÉPOCA, o padre Rogério de Oliveira Pereira, de 45 anos, tentou se reeleger vereador pelo PT (argh!) no município de Ouro Branco, Minas Gerais. Ele assim expôs as razões de sua candidatura: “Minha candidatura não é coisa minha. Ela nasce de um apelo da comunidade”.

 

            As pessoas querem políticos honestos, sim. Mas seguramente querem – com muito mais razão e necessidade – sacerdotes santos e dedicados. Essa coisa de “é o povo que quer” é messianismo. Tentativa de parecer o salvador da Pátria. Ainda que o povo queira, não se justifica a candidatura. E se o povo não sabe o que quer? E se o que as pessoas querem não for o melhor para elas? Se um filho pedir uma serpente acaso um pai (de verdade!) dará? Apenas para satisfazer o gosto do filho?

 

            Como não bastassem estas pérolas todas, ainda se encontra termos sem nenhum sentido como política da comunhão. O que é isso? Pra mim cheira àquela tese imbecil do PSTU de que é preciso governar com todo o povo. Só quando houver comunhão de opiniões se fará algo. O absurdo disso é o seguinte: se os representantes do povo, antes de tomarem qualquer decisão, precisam consultar toda a população, então para que os elegemos? Se for assim, então sirvamos referendos à la carte! 

 

            Padre João de Barros Filho, de 73 anos, que disputou uma vaga de vereador em Lagoa Santa (MG) disse que se afastou do ministério mais continua a ajudar os “companheiros padres a celebrar missas informalmente”. Que é que isso quer dizer? Ele é uma espécie de acólito oculto? Ou disfarça-se de leigo para concelebrar? Será que essa missa ajudada por ele é um misto de comício com missa? Ou pior: de missa com comício?

 

Os franciscanos

 

            Numa rápida busca na internet, me impressionei com o número de frades franciscanos candidatos ou envolvidos diretamente em política partidária. É lamentável ver que a família franciscana seja uma das que mais colabora como fornecedora candidatos. Isto decorre, em grande parte, do fato de o carisma franciscano estar muito vinculado à lida com os pobres. Obviamente, a idéia que São Francisco tinha da Dama Pobreza, e a forma que ele escolheu para servir a ela, era bem diversa desta que alguns de seus filhos vêm adotando. Estes, deixaram-se contaminar por uma compreensão de pobreza (e de pobre) muito libertária… Vinculou-se a imagem do pobre à do oprimido. E para vencer o opressor, unem forças os paladinos da pobreza! Com suas foices vêm derrotar os opressores: capitalistas, latifundiários, americanos imperialistas, etc.). [Argh! Luta de classes!].

           

 

O ensino da Igreja

 

            A igreja trata da militância política de padres no Código de Direito Canônico, que deve ser obedecido pelos clérigos. O parágrafo terceiro do cânon (norma) 285 diz que “os clérigos são proibidos de assumir cargos públicos, que implicam participação no exercício do poder civil”.
            Já o parágrafo segundo do cânon 287 diz: “os clérigos não tenham parte ativa nos partidos políticos e na direção de associações sindicais, a não ser que, a juízo da competente autoridade eclesiástica, o exijam a defesa dos direitos da igreja ou a promoção do bem comum”.
            Além disso, muitos bispos em suas dioceses já se manifestaram contrários à participação direta de padres na política: D. Mauro, no Paraná (veja
aqui); D. José, em Recife; D. João, em Brasília.

           

Uma esperança

            Frei Valdair, diz: “Me licenciei, mas continuo padre, como sempre serei. É um sacramento”, afirma. O petebista lembra que, caso deixe a política no futuro, pode retornar à função eclesiástica: No mesmo sentido, Padre Ferreira afirma: “Preferi pedir meu afastamento para não ocupar os dois cargos ao mesmo tempo. Ninguém nunca deixa de ser padre. É igual a médico, advogado, você pode não exercer, mas sempre será um. Padre ainda mais, porque a ordenação tem caráter sacramental”.

            Em meio a essa confusão toda, pelo menos uma centelha de consciência: parece que a maioria dos padres que se candidatam está ciente da teologia sacramental da Igreja, a qual professa a irrevogabilidade do sacerdócio católico: Tu es sacerdos in aeternum.

 

O manifesto comunista – 2ª edição

 

            Agora vem o pior: Sob o efeito de algum tipo de ópio satânico alguns padres assinaram em 13 e 14/05/2008 um documento chamado “Carta – manifesto dos padres na política partidária”. A assinatura da carta se deu durante o VI ENCONTRO MINEIRO DOS PADRES NA POLÍTICA PARTIDÁRIA. É um nojo.

“Sob a inspiração do Vaticano II, das Comunidades Eclesiais de Base, da Opção pelos Pobres e da Teologia da Libertação, muitos padres abraçaram a evangelização com inserção no mundo da Política. A história mostra a participação de  inúmeros padres na vida política do Brasil: Pe. Cícero, Pe. Ibiapina, Frei Caneca, Pe. Lage (em Belo Horizonte), Hugo Paiva (no RJ) etc. Muitos sacerdotes foram perseguidos por denunciar tantas injustiças contra as pessoas e muitos foram martirizados. Só para citar alguns: Pe. Ezequiel Ramin, Pe. Gabriel, Pe. Josimo, Dom Oscar Romero Os anais da história política dos pequenos municípios mostram padres que participaram ativamente na política partidária com mandatos no executivo e legislativo e que contribuíram muito para a melhoria de vida do povo. Até um bispo salesiano, Dom Aquino Correia, chegou a ser governador do Estado do Mato Grosso”.

            Acho que os termos que grifei dizem tudo, não é verdade? Depois de evidenciar a adesão total ao pensamento Boffiano, vem a narrativa (quase genealógica) dos nomes que serviram de exemplo, inspiração e motivação dos sacerdotes candidatos de hoje em dia. 

“Há padres que são advogados, diretores de escola, professores, operários,… Por que um padre não pode assumir um cargo político? “Divide a comunidade”, dizem muitos. Engano! Muitas vezes a unidade preconizada é só espiritual e aparente, não é uma unidade real e concreta, pois continuam comungando na mesa da eucaristia pessoas que são solidárias aos oprimidos, ao lado de pessoas que, no dia-a-dia, estão em estruturas de opressão. Se o padre ou o pastor se posiciona politicamente, corre o risco de perder alguns fiéis, mas a comunidade ganhará em qualidade. Explicita as divisões internas na comunidade e faz vir à tona as opções que negam  a postura evangélica. O ministério sacerdotal não se restringe ao âmbito interno da Igreja, mas, em regime de exceção, pode incluir a administração pública, no exercício de cargos administrativos. É questionável o princípio ético que diz: Para não dividir a comunidade, padre não deve se candidatar, não deve indicar candidatos, não deve se posicionar politicamente”.

            Interessante o início deste parágrafo da carta. Os reverendíssimos se questionam o porquê de um padre não poder assumir um cargo político. E eu fico me perguntando por que ele não assume o seu cargo eclesiástico. “Há padres advogados, diretores, professores…” E por que não padres padres?

“Religião e Política não se separam. O nosso mestre Jesus de Nazaré foi condenado à pena de morte por um complô dos poderes político-econômico e religioso”.

            A velha visão TL… Chega a dar tristeza: a dimensão salvífica da morte de Jesus é deixada de lado. A visão de Jesus como Mestre, como Filho de Deus, dá lugar a uma espécie de pré-cursor de Che Guevara.

O Galileu enfrentou os conflitos, tomou partido do lado dos oprimidos e, por isso, foi condenado à pena de morte. Não se contentou com uma paz de cemitério, nem com uma unidade aparente.

Hilário.

 

Que São João Maria Vianney, o Cura d”Ars, interceda por nós e pelos nossos sacerdotes!