Fiquei pasmo ao ler comentário de sua Eminência, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo publicado no site da Agência Ecclesia. O título da notícia era: “D. José Policarpo: Igreja está a perder a sintonia com as pessoas”. Os comentários que a matéria traz foram feitos durante a conferência As Linhas Emergentes para a Evangelização da Europa Globalizada e Laicizada”, ocorrida em Lisboa. Além de D. Policarpo, esteve presente ao encontro o arcebispo de Viena, D. Christoph Schönborn. Ao ler a matéria percebe-se que os bispos quiseram, antes de qualquer coisa, traçar o perfil da Igreja na Europa. E foi exatamente ao fazer essa análise que sua Eminência tirou conclusões, no mínimo, pouco prudentes. Abaixo contraponho algumas idéias às considerações do Patriarca português.

           

            Dizia ele: “A Igreja com respostas demasiadamente rígidas e canônicas às inquietações dos fiéis, perde a sensibilidade de chegar a essas pessoas”.

 

            Não será através dessas respostas rígidas e canônicas que a Igreja consegue manter os fiéis de todas as partes do mundo congregadas numa só fé? Será que não é a norma estabelece a ordem? E os princípios? Não dão eles sentido às normas? Se a Igreja não fosse rígida será que o Depositum Fidei (Depósito da Fé) estaria ainda íntegro?

            Após todos esses questionamentos, chega a uma triste constatação: o problema das pessoas, hoje em dia, é aceitar a autoridade de outrem. Cada um quer ser senhor de si. Bem diverso é o pensamento dos santos, que entendiam a submissão como uma virtude; que se alegravam ao saber que eram comandados por um mesmo Senhor. Atualmente, ser obediente virou sinal de fraqueza. Pior: influenciadas pela lógica marxista, as pessoas são induzidas a crer que a potestade de ordenar é uma característica do ente opressor. Se alguém ordena, rejeita-se de imediato. Vivemos uma ditadura da democracia: “se não for votado e acordado pela maioria, não vale” A democracia é quem manda. Nem sequer se leva em conta a moralidade da norma em si, isto é: independentemente de quem a instituiu, a norma é boa ou não? É coerente? Simplesmente unem-se os achismos e aqueles que conseguirem organizar o maior lobby, ganham. A razão está com quem tem maior número. O princípio fundamental é: Vox populi, vox Dei (A voz do povo é a voz de Deus). Isto é lamentável. Por essa lógica, a morte de Jesus foi justa, porque unanimemente gritavam: Crucifica-o!

            Além disso, me chama a atenção o fato de D. Policarpo parecer insinuar que as coisas devam ser tratadas caso a caso (o que é nem sempre é viável para uma organização do tamanho da Igreja Católica). A sensibilidade de chegar às pessoas se faz precisamente através das normas da Igreja. O “chegar às pessoas” deve ser exercido a partir das instâncias mais próximas. Isto é: o pároco deve aproximar-se de seus paroquianos mais que o bispo, em razão de estar mais próximo a estes fiéis que o bispo. Este, por sua vez, deve ser mais próximo dos padres de sua diocese que o Papa, que reside em Roma. E assim por diante: quem está mais próximo conhece mais. As possíveis dificuldades de “sintonia” devem ser atribuídas com muito mais razão a quem está mais próximo, e não à Igreja, em latu sensu.

 

            D. Policarpo também afirmou que: a “estrutura canônica com que é enquadrada a nossa direção pastoral é demasiadamente rígida para deixar a liberdade de resposta à própria procura de Deus”.  

 

            O homem é livre. Assim Deus o criou. E a sua resposta à procura de Deus será sempre um ato livre. Então me pergunto: como pode a Igreja limitar, restringir, a resposta da criatura ao seu criador? Dito da maneira que está parece que sua Eminência crê que a Igreja dificulta o acesso dos homens a Deus. Isto seria uma anti-evangelização! Aliás, em questões de “direção pastoral” a Igreja deixa os bispos, bem como as conferências episcopais, bastante livres para discernir o modelo mais adequado de evangelização a ser adotado. Não sei, portanto, a que se refere o eminentíssimo cardeal quando fala de uma estrutura canônica rígida na qual está enquadrada a direção pastoral.

 

            Por fim, o Patriarca de Lisboa afirmou: “Começaram a chegar pedidos e dinamismos na linha da adoração contínua do Santíssimo sacramento. Nós temos de responder a isto (… )já foi feito um levantamento sobre quais as experiências de adoração do Santíssimo Sacramento”.

 

            O que exatamente quis dizer D. Policarpo quando falou de “quais as experiências de adoração ao Santíssimo?”. Espero que não esteja ocorrendo em Lisboa os laboratórios de adoração que vez por outra acontecem por esta nossa Terra de Santa Cruz…

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