“Quis putas est fidelis servus et prudens, quem constituit dominus supra familiam suam, ut det illis cibum in tempore? Beatus ille servus, quem cum venerit dominus eius, invenerit sic facientem. Amen dico vobis quoniam super omnia bona sua constituet eum” (Mt 24, 45-47).

 

            “Quem julgais que é o servo fiel e prudente, que o senhor pôs à frente da sua família para os alimentar a seu tempo? Feliz esse servo a quem o senhor, ao voltar, encontrar assim ocupado. Em verdade vos digo: Há-de confiar-lhe todos os seus bens” (Mt 24, 45-47).

 

            Ainda no espírito do Evangelho de domingo passado (Mt 16,13-20), o qual nos apresenta a instituição da Igreja e do Papado, decidi tecer alguns comentários a respeito de uma figura que vem sendo sistematicamente vilipendiada pelos meios de comunicação: o Papa. Mártir devido a inúmeras incompreensões e perseguições.

            A mídia [em especial, a do Brasil] tenta passar para o povo a imagem segundo a qual Bento XVI seria um inquisidor (já que, quando cardeal, Joseph Ratzinger presidiu a Congregação para a Doutrina da Fé, antigo Santo Ofício). Naquele malfadado episódio da Universidade de Ratisbona, na Alemanha, os meios de comunicação tentaram disseminar que o Romano Pontífice era um anti-semita que não tinha nenhum respeito ao Islã. Depois, ainda, quando o Santo Padre declarou que os casais de segunda união representavam uma “piaga”, isto é, uma “chaga” na sociedade moderna, tentou-se mostrar que o Sucessor de Pedro tinha dado uma demonstração cabal de sua personalidade anacrônica que – “sem abertura ao novo” – considerava tais casais uma “praga”. Na visita ao Brasil, em maio de 2006, a imprensa esperava um Papa sisudo, com ares puritanos [na realidade, encontrou um homem dócil, afável, um verdadeiro pastor, disposto a largar noventa e nove ovelhas para buscar aquela que se perdeu (Mt 18, 12-13)]. Uma fábrica de cerveja alemã chegou a usar a imagem do Santo Padre, o papa Bento XVI, para fabricar rótulos da bebida. Sem contar os foliões que – a despeito das festividades do carnaval – vestem-se de papa, causando escândalo e praticando orgias que insinuam as pessoas a pensar que o Papa é, como eles, devasso. Enfim, os ataques são muitos e de todos os lados. Mas, diante de tantos episódios tristes de ataque ao Servo dos Servos de Deus percebemos duas coisas:

 

   O ministério petrino precisa ser melhor compreendido.

– Cumprem-se as promessas de perseguição que Jesus fez no Evangelho segundo São Marcos (10, 30).

            Face a tantas interpretações maldosas – e mal feitas – a supracitada passagem do Evangelho de São Mateus nos convida a um questionamento muito pertinente: Quem é o Santo Padre? Como ele deve agir?

            As diretrizes da ação do papa – que acabam se tornando suas características – é Jesus mesmo quem descreve, no Evangelho. Espera-se que ele seja:

 

Fiel – fiel às tradições da Igreja, leal a Jesus Cristo e à sua Boa Nova. A fidelidade tem um quê de coerência e, sobretudo, de comprometimento com a verdade. Também de dentro da Igreja, muitas vezes surgem críticas ao Santo Padre. Muitos grupos “tradicionalistas” já ousaram [e alguns ainda ousam] dizer o Papa filiou-se ao modernismo; que já não faz as coisas de “sempre”. A pretensão de certos “fiéis” é tanta, que muitos se esquecem que Jesus roga pelo Seu Servo para que a fé dele não desfaleça e, assim, ele possa confirmar a fé de seus irmãos (Lc 22, 32). A fidelidade do Papa é um dom que Deus concede em atenção a Jesus.

 

 

Prudente – o Santo Padre deve ser prudente. Mesmo quando acusado de antiquado, retrógrado ou qualquer adjetivo semelhante, ele deve estar atento às palavras do apóstolo Paulo: “(…) virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si. Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas. Tu, porém, sê prudente em tudo, paciente nos sofrimentos, cumpre a missão de pregador do Evangelho, consagra-te ao teu ministério” (2Tm 4, 3-5). Jesus já havia aconselhado: “Sede prudentes como as serpentes” (Mt 10,16).

            Além disso, o Papa deve ser amado por ter uma vocação única entre todos os homens do mundo. Alguns podem dizer: “ah, Jesus poderia ter escolhido qualquer um”. De fato, a vontade divina é soberana e poderia ter escolhido qualquer um. Mas esse “qualquer” – que foi escolhido – vai sempre carregar o selo da eleição divina. Quem quer que seja, a partir do momento em que Deus o chama, passa a ser “o escolhido”. Assim como os judeus, mesmo tendo rejeitado Nosso Senhor, nunca vão deixar de ser o povo amado em primeiro lugar. A eleição é sinal de amor. Se Deus ama o Papa, por que nós não o amaremos?

            Ainda olhando para o trecho bíblico de S. Mateus que encabeça este texto, podemos contemplar a figura do Santo Padre como guardião dos sagrados mistérios, em especial a Santíssima Eucaristia. A eucaristia é o alimento com o qual Deus nutre a nossa alma. E, diga-se de passagem, o Papa Bento XVI tem exercido o ofício de guardião do Mysterium Fidei de modo magistral. Primeiro, através do moto próprio Summorum Pontificum, no qual se estabeleceu que a rica liturgia tridentina deve ser tratada como Rito Romano Extraordinário, podendo ser celebrada por qualquer sacerdote que deseje, sem necessidade de indulto por parte do Ordinário local. Depois, escrevendo aquela magnífica exortação apostólica chamada Sacramentum Caritatis, na qual o mistério da Eucaristia é aprofundado (mas não esgotado), em continuidade com a Encíclica Ecclesia de Eucharistia, de autoria do Papa João Paulo II, de felicíssima memória. Além disso, as atitudes mais recentes do Chefe da Igreja Universal têm mostrado o grande apreço que ele tem ao Santo Sacrifício: a comunhão de joelhos que tem feito questão de administrar nas celebrações em Roma, mostram a piedade eucarística de Bento XVI.

            Em suma, o “servo fiel e prudente” é o Papa. E ele tem feito o seu papel. Ponhamo-nos nós, leigos, no nosso lugar, e desprezemos os juízos maldosos que muitas vezes são feitos a respeito da pessoa e do ministério do Sucessor de Pedro. Roguemos a Santa Catarina de Sena que nos ensine e nos ajude a amar o “Doce Cristo na Terra”. Que possamos afirmar com os Padres da Igreja: “Cum Petrus, et sub Petrus” (Com Pedro, e sob Pedro).

 

 

Gustavo Souza

 

 

Anúncios