“Sabemos que Deus nos ama e cremos no seu amor”

 

 

 

A liturgia nos reserva essa profunda meditação acerca do amor de Deus por nós. Para entendê-la é preciso separar as duas partes que a compõem.

 

 “Sabemos que Deus nos ama…”.

 

O conhecimento do amor de Deus é peça fundamental no processo de conversão de qualquer ser humano. A razão nos diz que Deus nos ama. Os gregos não conseguiam conciliar essa visão e amor com a de sofrimento. Pensavam eles: Se Deus nos ama, por que não nos livra do sofrimento?

Hipótese 1: Deus não quer nos livrar. Se essa hipótese fosse verdadeira, então Deus não nos ama. Ora que tipo de Pai observaria passivamente o sofrimento de um filho? Se Deus nos amasse não assistiria ao nosso sofrimento mas, pelo contrário, nos assistiria e cooperaria para a nossa salvação.

Hipótese 2: Deus não pode nos livrar do sofrimento. Se essa hipótese fosse verdadeira, então Deus não teria o atributo da Onipotência, logo, não seria Deus.

 

Por que a aversão ao sofrer?

 

Santos como Santa Terezinha do Menino Jesus diziam: Um dia sem sacrifício nada vale. Outro santo dizia: “Quem me dera descrever o tesouro tão divino que o Grande Deus, Uno e Trino, colocou no padecer”. E mais adiante: “Quão feliz o coração que na cruz abandonado se consome em Santo Amor entre os amplexos do amado”. Há uma riqueza imensa oculta no sofrer.

Por não querer sofrer é que mulheres abortam crianças. Para elas, o filho seria um peso, um sofrimento para o resto da vida [e não mais uma bênção divina]. Para elas, os atos de amor que uma mãe.

Por não querer sofrer é que os filhos [os que conseguiram escapar ao aborto], põem os pais em asilos e não raro propõem a morte de seus pais com a desculpa de que não querem vê-los sofrer. Alguns até invocam à própria morte (a maldita eutanásia!).

É difícil discutir essa questão do aborto e da eutanásia porque as pessoas imaginam que isso é um “direito adquirido”: “Tenho o direito de matar um filho não planejado”. “Tenho o direito de matar a mim mesmo ou aos meus pais se julgar que a vida não vale mais a pena”. Pergunto: quem nos legou o direito de matar? A vida está sendo ameaçada e podada em suas extremidades: no início pelo aborto, e no fim pela eutanásia. Defender a eutanásia é fazer apologia ao suicídio. Primeiro elas acham esse tipo de decisão sensata, lógica. Depois elas passaram a achar justo, nobre. E por último elas acham bom isso. E aí é o fim. É a completa inversão de valores: o que é essencialmente mau se traveste de bondade, de justiça de sensatez, de nobreza.

O problema é que sofrer é difícil. Que o diga o Cristo Crucificado! Num mundo em que tudo é fácil porque optar pelo difícil? Qual a vantagem que há em sofrer, em sacrificar-se e, pior, permitir ser sacrificado?

 

Em outra oportunidade já escrevi a respeito do pouco valor que nós damos ao céu. A grande vantagem que há em sofrer é o Céu. O preço é ato, mas já foi pago! São Paulo diz que os sofrimentos da vida presente não têm comparação com a Glória Futura. O Apóstolo dos gentios enxerga longe…Ou será que nós é que não enxergamos? Pior: será que nós não queremos enxergar?

Será que não lemos a história de Lázaro? Que após ter recebido em vida os males foi gozar da Eterna Alegria no reino dos Céus?

E que dizer frente à injustiça e à impunidade reinantes nesta Terra de Santa Cruz? E quanto à violência, à fome e aos tantos outros males que os homens causam aos homens? Por que Deus não os impede? Por que assiste passivamente ao espetáculo da dor?

Que dizer dos desastres naturais (enxurradas, tornados, terremotos e afins)? Deus – que controla a natureza – seria o culpado?

 

“E cremos no seu amor”

 

Essa é uma parte fundamental. Saber é diferente de crer. Posso, com a razão, entender que Deus me ama. Mas, apesar disso, posso não dar minha adesão a esse amor (ou seja, ter fé nele; orientar meus atos segundo essa crença). Deus espera de nós uma resposta. E não nos coage para obtê-la, pois o amor age em liberdade. O amor tem necessidade de ser correspondido [embora a correspondência não seja condição para a existência e conservação do amor].

Sofrer por culpa de um ato insensato (meu ou dos outros) é conseqüência. Sofrer por causa de uma situação não prevista (como os desastres naturais) às vezes é negligência e às vezes fatalidade. Mas sofrer por opção é amor. E essa é a novidade que os santos nos convidam a anunciar.

O protestantismo tem aversão ao sofrimento. Para enfrentá-lo, teólogos protestantes criaram a Teologia da Prosperidade. “Deus me livrará de todos os males”. Jesus nos ensina a rezar dizendo: “livrai-nos do mal”. Esse mal (com “l”) se refere ao Maligno, ao Tentador, a Satanás que quer a nossa perdição. Não tem nenhuma relação com os males que nos afligem neste vale de lágrimas. Não se refere aquilo que é mau (àquilo que não é bom).

            Não só eles – os protestantes – mas todas nós temos medo do sofrimento. A diferença está em como respondemos a esse medo. Como Jesus – com determinação – ou como Pedro que, com medo de sofrer, negou a Jesus três vezes? Maria encarou a crucifixão e morte de seu filho [que se convertia em seu sofrimento] de pé. Suportou calada (mais que isso: resignada!) a espada da dor transpassar-lhe a alma. Tomou em seus braços o Filho morto e O contemplou. Parecia um verme e não um homem…

            Alguém me dirá: “desejar o sofrimento não é masoquismo?”. A resposta é não. Provocar o sofrimento, sim, é masoquismo. Mas desejá-lo, e aceitá-lo quando ele vem, é querer provar o amor (em todos os sentidos que se possa intuir dessa frase).

Caríssimos, “A cruz permanece firme, o mundo dá voltas”. Abracemo-nos, pois, a ela. E fixemos nosso olhar no Eterno, porque “tudo passa (inclusive o sofrimento). Só Deus basta” (Santa Tereza d’Ávila).