“Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também” (Lc 6,38).

 

 

            Um dos nossos grandes pecados é medir. Medir pela medida que nós julgamos ser a mais justa, a mais correta, a mais sensata.

Costumamos utilizar vários padrões para medir as pessoas. O dinheiro é um dos padrões que mais usamos. Quem nunca ouviu – ou pronunciou – a expressão: “o homem vale o que tem no bolso”. Isso reflete perfeitamente o que o mundo moderno pensa a respeito do homem: se tem dinheiro, é valioso; se não tem, não vale nada. Aliás, fala-se que na Idade Antiga e na Idade Média prevalecia o Teocentrismo, enquanto hoje na ciência, na cultura, nas artes e no pensamento do mundo moderno (contemporâneo) prevalece o Antropocentrismo. Isto se fala com ar de alívio e, ironicamente, dando graças a Deus. Mas, que tipo de Antropocentrismo é esse que mede o homem pelo saldo de sua conta bancária? Quem está no centro: o homem ou o dinheiro do homem?

            Medimos as pessoas pelas roupas que elas usam. Sem nos lembrarmos daquela simples e grandiosa verdade que Jó constatou: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei” (Jó 1, 21).

            Outro padrão muito utilizado é o de Conhecimento. Quem se mostra inteligente, culto, perspicaz, astuto, vale muito. Quem não têm essas capacidades em nível satisfatório, é taxado de burro, ignorante, inculto. A propósito é inconcebível dizer que alguém é inculto dado que um ser humano – vivendo em sociedade – absorve a cultura da mesma, seja ela qual for. Portanto, ninguém pode ser considerado sem cultura.

E o padrão da idade… Esse que desemprega (e mantém no desemprego) tanta gente. Acaso nos esquecemos de Simeão, de Ana, a profetisa, de Eleazar e de tantos outros homem de grande maturidade na fé? Esquecemos que a velhice confere autoridade e os cabelos brancos outorgam prestígio (II Mac 6,23)?

 Essa discussão em torno dos padrões (unidades) de medida desemboca na questão dos valores da sociedade que, por sua vez, conduz ao problema do pré-conceito, que nos leva a outro debate, e assim por diante. Mas, afinal de contas, por que é pecado medir?

É simples: porque Deus não nos mediu! Quando Cristo deu sua vida na cruz, ele a deu por todos, sem distinção, pagando um único preço por todos. E o preço foi o seu sangue derramado. Eu, com meus pecados, valho o preço do sangue de Cristo. E você, com todas as suas virtudes, vale o mesmo preço que eu! São Pedro diz uma frase muito interessante: “Deus não faz distinção de pessoas” (At 10, 34) Em outras palavras, Deus não é pré-conceituoso, e nem pode sê-lo, pois conhece todas as coisas desde o princípio e até mesmo antes de elas existirem.

 

 

             Quem já não se deparou com a expressão: “Fulano não vale nada”. Quem somos nós para dizer isso? Quem somos nós para atribuirmos ou deixarmos de atribuir valor a alguém. Quem cria é que tem o direito de atribuir valor. Um artista que passou dias, semanas, meses pintando um quadro não vende sua obra a preço de banana. Ele sabe o quanto ela lhe custou! Nós custamos a vida do Filho de Deus! Num de seus salmos Davi se interroga: “que é o homem Senhor para dele te lembrares?” (Sl 8,5). E, mesmo sabendo que o homem é pó, o Salmista continua: “Pouco abaixo de um deus o fizeste [o homem], coroando-o de glória e esplendor” (Sl 8,6). Deus é quem sabe a medida exata do homem. Deus é quem sabe o valor da sua obra de arte. Deus é que é justo para dizer o que cada um é, em essência, desconsiderando totalmente aquilo que mais nos chama a atenção: a aparência. Lembram-se do Pequeno Príncipe: “o essencial é invisível aos olhos”? Quando queremos medir os outros, nos arvoramos em deuses, juízes do mundo. É a ilusão que conduziu ao pecado original: a de querer ser Deus. Pecamos por que nossa balança é injusta! Porque nossos olhos são cegos para o essencial! Porque não aprendemos que os defeitos que enxergamos nos outros são o reflexo das nossas fragilidades e incapacidades!

Preocupamo-nos em medir, em julgar, e não em conhecer. Já reparou que quem mede algo está interessado apenas no resultado final da medição. Por exemplo: Se você vai ao supermercado e pede pra um funcionário pesar um quilo de batata, ele não vai se preocupar com que tipo de batata está indo na sua sacola. O que interessa é o peso da sacola, não o que está dentro!

            A expressão de Jesus é forte: “com a mesma medida com que medirdes, sereis vós medidos também” (Lc 6,38). Em certo sentido, é como se Jesus resgatasse a Lei de Talião: olho por olho, dente por dente. Mas, na verdade, nós é que escolhemos assim. Se passamos a vida inteira medindo os outros, é porque acreditamos que essa é a melhor maneira de saber quem é o outro. Preferimos leis desumanas e padrões injustos em detrimento do diálogo misericordioso. Deus, que sempre respeita nossas opções, usará do método que nós mesmos escolhemos para nos julgar.

São Francisco dizia que “ninguém é mais nem menos do que é aos olhos de Deus”. Ele entendeu perfeitamente que Deus é quem tem o direito e a autoridade de medir e julgar cada ser humano. E que a medida do Senhor é a justa medida. Aprendamos com ele, São Francisco, e com a Virgem Mãe de Deus, a não medir senão a nós mesmos!

 

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