Ás vezes a gente acha pérolas sem querer. Estava dando uma rápida olhada no site da sociedade brasileira de canonistas achei um artigo muito interessante o qual faço questão de postar aqui na íntegra. O artigo trata do “hábito eclesiástico”. Tenho particular afeição sobre o assunto porque a mim parece muito estranho que este costume tão salutar (o de vestir-se de acordo com a dignidade de sua vocação e função) tenha se tornado raro entre os eclesiásticos.

            Muitos sacerdotes e religiosos alegam não usar hábito, nem batina, porque seria sinal de ostentação perante o povo. Logo, não convém ao cristão (que deve primar pela humildade). Outros, sobretudo aqui no Nordeste do Brasil, alegam que o calor é grande. Portanto, usar este tipo de veste se torna um suplício. Outros ainda, acham que o hábito não tem relevância: é apenas um sinal exterior que não conta diante de Deus, que olha para o interior do homem.

            Todos estes motivos me parecem ter um fundo de verdade, mas não são suficientes para justificar o abandono do uso do hábito ou batina. É verdade que pode haver padres para os quais o uso das vestes eclesiásticas seja um estímulo à vaidade. Mas não se pode simplesmente sucumbir a isso, não se pode fugir à luta contra a vaidade. Também é verdade que no Nordeste faz muito calor! Mas, acaso Cristo não é merecedor do suor que se possa derramar por vestir o sinal do chamado que ele fez? Também é verdade que a Deus importa mais ter um coração religioso. Mas se pensarmos exclusivamente desta forma teremos que eliminar quase a totalidade dos elementos que embelezam a nossa rica liturgia: os sinais externos ajudam à contemplação do interior! “Não basta ser a mulher de César, é preciso parecer a mulher de César”.

            Dioceses atingidas pela influência nefasta da Teologia da Libertação também têm dificuldades em fazer os seus padres e religiosos vestirem-se como tal. Isto porque a TL quis inverter tudo: quis clericalizar os leigos e laicizar o clero. Confundiram a cabeça das pessoas de maneira que não se faz distinção entre o sacerdócio comum e sacerdócio ministerial.

            Por essa e outras trago este artigo para cá. Os grifos que nele constam foram feitos por mim.

 

 

O dever do hábito eclesiástico

Cân. 284: Os clérigos usem hábito eclesiástico conveniente, de acordo com as normas dadas pela conferência dos Bispos e com os legítimos costumes locais.

            A determinação do que seja “hábito eclesiástico”, que antes correspondia aos “costumes legítimos” e às “prescrições do ordinário do lugar”, passam agora às conferências Episcopais. Não se pode dizer, porém, que se imponha a estas uma obrigação estrita de dar normas nesse campo. De acordo com os pronunciamentos do Papa João Paulo II, a forma de vestir dos sacerdotes deveria ser, de algum modo, sinal da dedicação pessoal e elemento qualificante da condição de detentores de um ministério público. A questão é tão gritante que em vários “visita ad limina” dos Bispos do Brasil e doutras partes do mundo o Papa tem tratado da questão. No Brasil a CNBB legislou que o traje eclesiástico digno e simples é o clergyman ou a batina, quanto aos clérigos religiosos eles têm duas opções: usar o hábito de sua comunidade religiosa ou o clergyman, em algumas comunidades religiosas não se permite trocar o hábito religioso pelo clergyman, por questões de identidade, dizem os superiores, mas o fato é que o clérigo não pode vestir-se como um comum dos mortais, eles têm um ministério público assumido publicamente diante do povo, em várias circunstancias, a saber: no dia das ordenações (Diaconal, Presbiteral e Episcopal) e no dia que assumiram ofícios específicos na Igreja Particular (Párocos, Administrador, Vigários Paroquiais, Forâneos, Episcopais, etc.).

            No entanto, nos primeiros séculos o hábito dos clérigos não se diferenciava da veste comum do povo, nem pelo tipo de tecido, nem pela confecção. A partir do século V, os romanos começaram a usar algumas vestes muito curtas, como era costume entre os bárbaros. Por isso, a Igreja teve que ditar algumas normas para ajudar os clérigos e religiosos a se vestirem dignamente. Porém a dignidade não significava luxo ou ostentação, a dignidade aqui se referia a exposição do corpo, pois, os cristãos, desde o início, se mostraram mui atenciosos a essa questão. Com a Doutrina de “templo do Espírito Santo” desenvolvida por São Paulo em Éfeso, criou-se a mentalidade de superproteger, guardar, cobrir como “coisa” sagrada o corpo. Também nesse tocante os cristãos começaram a se diferenciar dos Romanos Pagãos.

            Desde os primórdios os monges, inicialmente, quase todos os ascetas eremitas optaram por uma veste de tecido rústico e de cor homogênea, que posteriormente foi chamado de hábito religioso ou clerical. Nos mais remotos escritos de regras religiosas encontramos a preferência pela cor preta, visto que era explicitamente contrária às luxuosas vestes coloridas da “nobreza pagã”, mas o tecido preto, para a época, já seria uma sofisticação, pois careceria de tintura, por isso muitos monges optam pelo hábito feito de tecido rústico sem pintura alguma, assim o monge se diferenciava publicamente de sua opção cristã radical, e, desde então começou-se a exigir do monge, sacerdote ou religioso (vocábulo já medieval) que se distinguisse, também, pela sua veste.

            Com a expansão do cristianismo vindo do oriente para a Europa e a gradual conquista dos povos bárbaros as coisas, aos poucos, foram tomando novos rumos, as novas ordens ou congregações religiosas começaram a “dar cor” as suas vestes, porém sempre cores homogêneas, nunca vestes coloridas, para se contrapor à seda de além de maleável sempre combina muitas cores no seu designe.

            Essa mentalidade perpassou todo o primeiro milênio e, sobretudo, o segundo até o vendaval que abalou as estruturas da vida religiosa após o Concílio do Vaticano II (1962 – 1965). O Concílio pediu a simplificação de alguns hábitos religiosos, mas alguns interpretaram essa norma a seu bel prazer e jogaram fora todos os sinais externos que sempre marcaram a vida religiosa ou sacerdotal. Diziam que o religioso ou o clérigo deveria ser identificado pelo seu modo de vida e não pelo seu hábito, só que isso resultou num verdadeiro fracasso vocacional a ponto de muitas congregações fecharem suas casas por falta de vocação, ou seja, a nova proposta de vida religiosa ou clerical em nada se mostrou mais eficaz que a tradição bimilenar da Igreja.

            Há um antigo provérbio medieval que diz: “O hábito não faz o monge, apenas o distingue de longe”, e todo religioso ou clérigo é vivamente convidado a honrar o seu habito por uma vida santa e simples. Hoje, estamos seguros disso, retornamos ao tempo dos Romanos Pagãos, e, grande parte dos religiosos e clérigos embarcam na onda, encontra-se religioso ou clérigo com roupas de última moda, coloridas, com mil e um adereços propostos pela mídia, e, não esqueçamos da gritante exposição do corpo que cada vez mais torna-se normal.

            O hábito eclesiástico sempre exerce uma função insubstituível no processo de evangelização, pois, em qualquer estratificação social, de qualquer nação, em qualquer tempo da história ele sempre questiona positivamente a opção que alguém faz por portar durante toda a vida este ou aquele hábito, que, repito, deve ser honrado pela santidade de vida de quem o usa.

            A abolição do hábito religioso ou clerical é uma doutrina genuinamente protestante, pois, Lutero ensina que a verdadeira Igreja era invisível, esse disparate foi condenado pelo Concílio de Trento e reafirmado pelo Concílio do Vaticano II, quando diz que a verdadeira Igreja de Cristo é visível, pelos seus sacramentos, pelos seus fiéis, pelos seus santos, pela sua arte, etc. Essa Doutrina da visibilidade da Verdadeira Igreja se apóia na Doutrina da Encarnação de N. Senhor Jesus Cristo, que torna visível aos nossos olhos a divindade, até então, invisível aos nossos olhos. Por isso que o hábito religioso ou clerical faz parte integrante da natureza da Igreja, tornar a fé visível, e, nesse mundo do áudio visual que nós vivemos, agora, mais do que nunca precisamos de símbolos que nos distingam no grande e diversificado universo do Povo de Deus. O exemplo mais evidente para nós é o Papa que em qualquer parte, diante de qualquer “platéia” sempre está com sua inconfundível veste talar branca, que depois do Papa São Pio V tornou-se uma nota característica da pessoa e ministério petrinos.

 

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